Insanidade
- Você consegue ouvir isso? – ele sorria como se estivesse sob efeito de alucinógenos. Cambaleava mesmo parado no mesmo lugar. Ele não estava alterado, não havia bebido nem se drogado, estava sob o efeito de sua insanidade – Vamos, você pode ouvir, não pode?
Ele segurava a nuca de Nash e soltava um riso baixo e sonoramente desconfortável. Eu ofegava e às vezes alto demais dependendo de seus movimentos. Eu apenas observava a mais doentia cena que jamais vira. Sentia-me invisível, mas sabia que o que era meu estava por vir.
- Não pode ouvir porque nada ainda aconteceu… – ele tirou um estilete do bolso – Fique calmo, você já vai ouvir – ele soltou outro risinho e com força enfiou o estilete em um dos olhos de Nash. Eu não conseguia acreditar. Meu estomago deu voltas e eu soltei um gemido alto demais.
Nash estava aos berros, eu tapava meus ouvidos e ele continuava com a mesma ação e repetia-a nos dois olhos. Eu chorava sem parar e ouvia os gritos cada vez mais altos. Chegava a sentir nojo de mim mesmo, sentia ânsia de vômito, sentia vontade de gritar, de me encolher. Fiquei paralisado até que todos também ficaram.
- Pôde ouvi-los, não pôde, Nash? - ele riu mais uma vez – Seus gritinhos.
Ele sumiu por alguns segundos. Nash ficou inerte no chão, fazia ruídos estranhos que me assustavam. Quis abrir a boca para dizer algo que coubesse à situação, mas nada me veio à mente e mesmo que fosse dizer, minha voz estaria apagada.
- Nash – choraminguei e os gemidos de Nash ficaram mais altos. Fiquei em silêncio e me encolhi mais ainda no canto da parede escura e suja.
- Você – ele apareceu e apontou para mim -, venha aqui.
Levantei me tremulo e mal conseguia mover as pernas.
- AGORA! – ele gritou.
Apressei-me o máximo que pude e ofegava como se mal conseguisse respirar. Minha vez estava chegando. Eu realmente merecia tudo isso? O culpado era Nash e eu sempre era o ajudante. Já estava de saco cheio, se quer saber. Não estava mais a fim de brincar com a vida dos outros. Mas agora era hora. Eu iria pagar. Eu já sentia. Já podia sentir a lâmina nos meus olhos.
- Pegue aquela furadeira – ele apontou para uma mesa num canto escuro que eu não havia visto antes – AGORA!
Peguei o instrumento. Já imaginava a broca furando meu crânio e retorcendo meus miolos. Entreguei em sua mão, mas ele recusou.
- Bem aqui, vamos – ele chutou a cabeça de Nash no chão e vi estampado em sua testa um X vermelho – Pare de ser mulherzinha e ligue esse negócio!
No primeiro momento eu não havia entendido o que eu deveria fazer com aquilo. Eu encarava o X e sentia meu peito inchar, meus olhos estavam arregalados, eu tremia. Sentia um terremoto dentro de mim, meus ossos pareciam gelatina.
- VAMOS! – ele me empurrou em direção a Nash. Tropecei e caí de joelhos de frente para aquele corpo mole e caído.
A minha mente se apagou. Posicionei a broca no X e liguei a furadeira. Nash gritava e me ensurdecia. Eu queria chorar, mas tudo que senti foi raiva, ódio,… insanidade.
- Mais fundo – ele sussurrava -, mais fundo – ele ria também.
Senti uma corrente elétrica passar por minha espinha, meus braços e pernas. Eu podia sentir a loucura dentro de mim e eu estava gostando disso. Olhei para ele e com toda força pressionei mais a furadeira e então, já não gritava mais. Eu não podia dizer se ele ainda estava ali, mesmo com o cérebro perfurado. Nash agora era um corpo inútil jogado no chão.
Ele estava rindo e eu, sabendo que era loucura, também ria. Em segundos estávamos quase nos jogando no chão de tanto rir. Eu não entendia absolutamente nada, mas eu gostava disso. Eu queria mais. Eu queria sangue nas paredes, eu queria ouvir os gritos, eu queria sentir a corrente passar de novo. Isso já não parecia loucura… Não, de algum modo isso era totalmente são para mim agora.
- Desculpe, mas qual é o seu nome? – perguntei depois de atear fogo ao corpo de Nash.
- Eu não tenho um – ele respondeu.
- Do que posso te chamar? – perguntei, então.
- Não vai precisar – ele respondeu e depois tirou um estilete do bolso.
