January 31, 2012


Insanidade

- Você consegue ouvir isso? – ele sorria como se estivesse sob efeito de alucinógenos. Cambaleava mesmo parado no mesmo lugar. Ele não estava alterado, não havia bebido nem se drogado, estava sob o efeito de sua insanidade – Vamos, você pode ouvir, não pode?

                Ele segurava a nuca de Nash e soltava um riso baixo e sonoramente desconfortável. Eu ofegava e às vezes alto demais dependendo de seus movimentos. Eu apenas observava a mais doentia cena que jamais vira. Sentia-me invisível, mas sabia que o que era meu estava por vir.

                - Não pode ouvir porque nada ainda aconteceu… – ele tirou um estilete do bolso – Fique calmo, você já vai ouvir – ele soltou outro risinho e com força enfiou o estilete em um dos olhos de Nash. Eu não conseguia acreditar. Meu estomago deu voltas e eu soltei um gemido alto demais.

                Nash estava aos berros, eu tapava meus ouvidos e ele continuava com a mesma ação e repetia-a nos dois olhos. Eu chorava sem parar e ouvia os gritos cada vez mais altos. Chegava a sentir nojo de mim mesmo, sentia ânsia de vômito, sentia vontade de gritar, de me encolher. Fiquei paralisado até que todos também ficaram.

                - Pôde ouvi-los, não pôde, Nash? - ele riu mais uma vez – Seus gritinhos.

                Ele sumiu por alguns segundos. Nash ficou inerte no chão, fazia ruídos estranhos que me assustavam. Quis abrir a boca para dizer algo que coubesse à situação, mas nada me veio à mente e mesmo que fosse dizer, minha voz estaria apagada.

                - Nash – choraminguei e os gemidos de Nash ficaram mais altos. Fiquei em silêncio e me encolhi mais ainda no canto da parede escura e suja.

                - Você – ele apareceu e apontou para mim -, venha aqui.

                Levantei me tremulo e mal conseguia mover as pernas.

                - AGORA! – ele gritou.

                Apressei-me o máximo que pude e ofegava como se mal conseguisse respirar. Minha vez estava chegando. Eu realmente merecia tudo isso? O culpado era Nash e eu sempre era o ajudante. Já estava de saco cheio, se quer saber. Não estava mais a fim de brincar com a vida dos outros. Mas agora era hora. Eu iria pagar. Eu já sentia. Já podia sentir a lâmina nos meus olhos.             

                - Pegue aquela furadeira – ele apontou para uma mesa num canto escuro que eu não havia visto antes – AGORA!

                Peguei o instrumento. Já imaginava a broca furando meu crânio e retorcendo meus miolos. Entreguei em sua mão, mas ele recusou.

                - Bem aqui, vamos – ele chutou a cabeça de Nash no chão e vi estampado em sua testa um X vermelho – Pare de ser mulherzinha e ligue esse negócio!

                No primeiro momento eu não havia entendido o que eu deveria fazer com aquilo. Eu encarava o X e sentia meu peito inchar, meus olhos estavam arregalados, eu tremia. Sentia um terremoto dentro de mim, meus ossos pareciam gelatina.

                - VAMOS! – ele me empurrou em direção a Nash. Tropecei e caí de joelhos de frente para aquele corpo mole e caído.

                A minha mente se apagou. Posicionei a broca no X e liguei a furadeira. Nash gritava e me ensurdecia. Eu queria chorar, mas tudo que senti foi raiva, ódio,… insanidade.

                - Mais fundo – ele sussurrava -, mais fundo – ele ria também.

                Senti uma corrente elétrica passar por minha espinha, meus braços e pernas. Eu podia sentir a loucura dentro de mim e eu estava gostando disso. Olhei para ele e com toda força pressionei mais a furadeira e então, já não gritava mais. Eu não podia dizer se ele ainda estava ali, mesmo com o cérebro perfurado. Nash agora era um corpo inútil jogado no chão.

                Ele estava rindo e eu, sabendo que era loucura, também ria. Em segundos estávamos quase nos jogando no chão de tanto rir. Eu não entendia absolutamente nada, mas eu gostava disso. Eu queria mais. Eu queria sangue nas paredes, eu queria ouvir os gritos, eu queria sentir a corrente passar de novo. Isso já não parecia loucura… Não, de algum modo isso era totalmente são para mim agora.

                - Desculpe, mas qual é o seu nome? – perguntei depois de atear fogo ao corpo de Nash.

                - Eu não tenho um – ele respondeu.

                - Do que posso te chamar? – perguntei, então.

                - Não vai precisar – ele respondeu e depois tirou um estilete do bolso.

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January 27, 2012


Sorrisos

As pessoas têm a mania de acreditar no que está na frente delas. Elas acreditam num sorrisinho estampado num rosto bonito, uma máscara que esconde um rosto frio. Você pode entender o que alguém sente quando vê seus olhos e entende o que dizem. Quando está realmente feliz não há ninguém que possa duvidar, ninguém que contradiga seus olhos brilhantes e cheios. Mas quando alguém está triste e você tem a chance de olhar fundo em seus olhos… Você entende.

                Não era só tristeza o que eu vi nos olhos dela. Eu vi destruição, eu vi um espaço vazio, eu vi um rompimento, eu vi partículas despedaçadas voando, eu vi um machucado. Em seu sorriso fechado e pouco curvadinho, lábios unidos formando uma linha quase reta tentavam esconder o que os olhos mostravam. Não eram muito convincentes. Nem um pouco, de fato.

                Pude notar, certa vez, uma lágrima solitária que havia escapado. Ela descia lentamente, como se estivesse esperando outra que estava por vir. Uma mão de unhas pintadas a tirou de lá e o rosto se abaixou, escondendo-se entre mechas de cabelo ruivas.

                A garota se sentou no banco de frente para o meu como sempre. Eu a observava com cautela. Tinha um belo rosto, olhos verdes escuros que se moviam lentamente pelo chão do vagão do metrô e raramente olhavam para cima ou para frente. Qualquer um diria que ela poderia estar apenas cansada, mas a pequena lágrima me fazia discordar.

                Depois de algumas semanas, decidi que no dia seguinte iria me sentar do outro lado do vagão e puxar conversa com ela. Sabe, talvez ela precisasse de um ombro amigo. Mesmo eu sendo um estranho, que mal havia de ter?

                Pois então, na manhã seguinte me sentei ali e ela entrou no vagão e se sentou em seu lugar de sempre. Ela olhou para meus sapatos e depois para o chão de novo.

                - Hoje não deve ser um dos seus melhores dias, não é? – disse eu depois de tomar coragem.

                - Meus melhores dias se foram há muito tempo – ela soltou um risinho forçado e olhou para mim, mas virou o rosto rapidamente.

                - Dylan – estiquei minha mão para um cumprimento.

                - Avery – ela apertou minha mão.

                Ela investigou meu rosto e minha roupa. Não olhava em meus olhos, mas não parecia desconfortável.

                - Por que diz isso? – perguntei depois de alguns segundos silenciosos.

                - Desculpe, o quê? – ela respondeu.

                - Por que seus melhores dias se foram há muito tempo? – perguntei novamente tentando entender seus olhos mais uma vez.

                - Ah, só parece que eles se foram…  – ela abriu a boca para continuar, mas fechou rapidamente.

                - Sabe, às vezes coisas ruins acontecem – comecei -, mas você tem que deixar as coisas boas acontecerem também. As coisas ruins acontecem muitas vezes sem que a gente consiga evitar. As boas, pelo contrario, precisam de permissão. Elas são educadas, elas se permitem serem recusadas.

                - E como eu dou permissão à elas? – ela me olhou intrigada.

                - Você foge das coisas ruins e sai da rotina. Na verdade, você simplesmente para de esperar por uma coisa boa. – limpei a garganta – É assim que acontece. Elas vem na hora certa, elas batem na sua porta e você só tem que deixá-las entrar.

                 Avery ficou em silêncio e ficou olhando confusa para o meu rosto. Estava me avaliando novamente e mexia as sobrancelhas como se estivesse fazendo expressões para o que se passava em sua mente. Então abriu um sorriso. Um de verdade.

                - Onde você aprendeu isso? – ela perguntou.

                - Digamos que eu já estive no seu lugar muitas vezes – respondi me ajeitando no banco.

                Ela estampou o sorriso no rosto nos minutos seguintes e então se despediu e saiu do metrô. Eu havia perdido a minha estação, mas não me importava muito naquele momento.

                No dia seguinte não sabia se deveria me sentar ao seu lado e continuar conversando. Fiquei de pé, então. O vagão tinha umas cinco pessoas espalhadas além de mim e ia enchendo um pouquinho a cada estação que passava. Avery não apareceu naquele dia.

                Nos dias seguintes e na semana seguinte também não.  Era estranho, pois desde que eu começara no emprego novo, eu tomava aquele metrô e me sentava no mesmo lugar, de frente para o lugar dela. Ela sempre estivera lá.

                Depois de um tempo eu já a havia esquecido. Andar de metrô havia se tornado uma coisa banal. Antes eu me permitia avaliar as emoções da garota bonita que se sentava à minha frente todas as manhãs. Bem, talvez coisas boas tivessem acontecido com ela, certo?

                Numa manhã qualquer, eu que tinha acordado meio atrasado e estava com o cabelo meio bagunçado, me deparo com Avery novamente. Encarei-a sem tentar ser discreto, estava um pouco surpreso.

                - Dylan! – ela disse.

                - O-oi! – respondi cruzando o vagão para me sentar ao seu lado – Onde esteve esse tempo todo?

                - Estava… deixando as coisas boas entrarem – ela sorriu de verdade.

                - É mesmo? Puxa… E o que aconteceu? – perguntei sorrindo também.

                - Bom, não mudei totalmente meu humor, mas… larguei meu emprego e arranjei outro que realmente define quem eu sou e dei um jeito nas coisas do meu ex-namorado que estavam lá em casa e… – ela se repreendeu como se estivesse falando demais – Me libertei! – então sorriu novamente.

                - Isso é ótimo, Avery! – olhei em seus olhinhos que não pareciam mais tão destruídos, mas definitivamente não estavam brilhando de alegria ainda – Afinal, eu estava certo.

                - Estava… – ela olhou para o chão novamente – Bom, eu só vim para agradecê-lo. Agora eu tomo a outra linha para chegar ao trabalho, mas hoje eu vim por esta para poder agradecer!

                - É mesmo? – olhei para ela incrédulo. Nunca pensei que meu papo furado sobre as coisas boas iria mesmo convencer alguém – Bom, acho que fico grato por isso.

                Ficamos em silêncio um tempinho e então minha estação chegou. Levantei-me e estendi a mão para me despedir da garota.

                - Obrigada, Dylan – ela sorriu novamente. Um sorriso maravilhoso.

                - Não há de quê – sorri de volta.

                As portas já iam se abrir e fui me dirigindo à saída. Avery me chamou mais uma vez e olhei para trás.

                - Tem alguma chance de nos vermos de novo? – ela disse, não mais sorrindo.

                - Claro! Podemos nos encontrar pra tomar café mais tarde… – tirei minha carteira do bolso e rapidamente peguei um de meus cartões e dei a ela.

                - Eu vou te ligar! – ela disse e as portas abriram.

                - É melhor mesmo! – passei pelas portas com um sorriso largo estampado no rosto que durou o dia todo.

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July 16, 2011


Scarlet

                Ela pegou os sapatos de salto alto vermelhos que se apoiavam no batente da porta do banheiro, fechou o zíper do vestido preto e balançou os cabelos castanhos. Foi naquele andar sedutor até a janela e calçou os sapatos. Olhou para mim enquanto o sol iluminava seu rosto e cegava meus olhos. Não conseguia lembrar seu nome, nem sua razão de estar em meu quarto.

                Ela se sentou ao meu lado. Era maravilhosa, a mulher mais bonita que eu já havia visto.

                - Você pelo menos se lembra como me chamo? – ela sorria.

                - Você se lembra como eu me chamo? – sorri de volta.

                - Drake, Derek, Damon, Damien… Dan? – ela riu, acertando Dan.

                - Jessica, Jennifer, Jane, Jen? – brinquei.

                - Scarlet, na verdade… – ela passou a mão em meus cabelos.

                Ela me beijou e se levantou. Foi andando lentamente até a porta, balançando os cabelos compridos.

                - Então você já vai embora? – eu disse me levantando da cama.

                - Nos veremos em dez anos, querido – ela sorriu maliciosamente e saiu pela porta da frente sem que eu a abrisse.

                Mal eu tinha idéia do que havia feito. Em menos de cinco anos eu havia me tornado milionário, uma das pessoas mais ricas do planeta, havia ganhado na loteria mais de três vezes e os negócios tinham prosperado absurdamente. Mal eu tinha idéia do que havia feito.

                Sete anos depois, eu não tinha mais amigos, não tinha esposa, filhos… Não tinha nada além de rios e rios de dinheiro.

                Dez anos depois, a bela figura de lábios vermelhos como os sapatos, vestida de preto, surge em minha porta tão jovem como era na única vez em que a vi.

                 Ela bateu na porta. Não recebi nenhum pedido de autorização de entrada dos seguranças, nem telefonema. Parecia ter entrado na minha propriedade sem ninguém perceber.

                Eu abri a porta pensando que fosse algum empregado.

                - Olá, Dan – ela sorriu maliciosamente.

                - Scarlet… – o nome dela veio à minha mente mesmo que não me recordasse há anos.

                - Dez anos se passaram – ela riu – e você até que não envelheceu tanto.

                - O que…? – eu sabia que não tinha nada de bom em suas intenções. Eu simplesmente soube naquela hora.

                - Eu vim buscar o que você me deve… – ela meio que cantarolou.

                - Quem é você? – recuei – O que você quer?

                - Sua alma – seu tom tinha mudado completamente. Agora eu podia ver a fúria em seus olhos.

                - Quem é você?

                - Pobre Dan – ela riu… Uma risada anormal – Você nem se lembra do que pediu não é? Devia estar tão fora de si!

                - O que eu pedi? – completamente confuso, nem imaginava o que havia ocorrido.

                - Na noite em que te encontrei… Ou melhor, você me encontrou, naquele bar, embriagado, cansado da vida, implorando por mim…  – ela aumentou o tom de voz – Você implorava por uma vida melhor, por dinheiro, por fama, sucesso! Estava lá, miseravelmente acabado e entregue à melancolia, tristeza! – ela gritou – Entregue às trevas!

                - Minha vida não era das melhores, realmente…

                - Então eu apareci assim como você me chamou. Eu te dei dinheiro, sucesso, fama… Agora vim buscar o que você me deve, querido – ela mostrou um sorriso meigo.

                - Mas eu não pedi isso a você, eu construí tudo que tenho – sentei-me na poltrona.

                - Mentira! – ela gritou – Acha que um idiota miserável como você conseguiria tudo isso? – ela ria – Coitadinho… É pior do que eu imaginava!

                Eu não conseguia entender o que ela queria que eu entendesse. Ela queria que eu acreditasse que tudo que eu havia sido feito da minha vida era por causa dela e eu lhe devia algo. A coisa mais importante que me restava já que o dinheiro havia perdido sua importância há anos para mim. Ela queria minha alma e eu não entendia o que isso significava.

                - E você quer minha alma?

                Ela segurou minha gravata, me puxou para que ficasse de pé e olhou em meus olhos. Um brilho amarelado passou por seus olhos e depois ficaram inteiramente pretos como se não existissem ali.

                - Você escolheu o dinheiro e vendeu sua pobre alma – ela gritou - Agora você terá que me pagar – sussurrou – Eu te dei dez anos para curtir essa sua vidinha de sucesso, apenas você e o dinheiro. Abriu mão da família, dos amigos… até mesmo do amor. Já acabou com a sua vida mesmo, para que continuar vivendo sem nenhuma razão para se viver? Nada mais te dá prazer, nem mesmo a juventude você pode resgatar. Seu império se resume a nada além de dinheiro e mais dinheiro. Quem vai herdar essa grana quando você morrer? Morrer será um risco… Esse risco você sempre correu, mas esta noite você me dará o que me deve.

                - É verdade, minha vida não tem mais sentido – mesmo que não tivesse, eu não a deixaria tomar minha alma – Me de mais dez anos e arranjarei um motivo para ela.

                - Então você quer negociar com o Diabo?

                - Diabo? – perdi a respiração ao pronunciar tal nome.

                - Quem mais eu seria? Um anjo? – a mulher caiu numa risada demoníaca que faziam doer meus ouvidos – Não vou te dar mais dez anos de vida, não vou me rebaixar a esse nível. Se você tivesse um motivo para viver, eu até pensaria no caso, mas hoje não.

                - E o que aconteceria se você levasse minha alma? – perguntei aflito.

                - Ora, iria para o inferno. Onde mais? – ela riu baixinho desta vez.

                - Tem como eu me salvar? – engoli seco.

                - Deveria tem pensado nisso antes…

                - Mas eu nem sabia que isso era possível…

                - Sabia!  - ela gritou novamente – Todos sabem! Todos sempre sabem! Mas ninguém se deixa acreditar. Todos pedem algo, todos imploram por algo. Jogam-se em bares, abandonam a família, chegam a cair na sarjeta pedindo, implorando, suplicando por sucesso, fama, dinheiro… qualquer coisa. Eles pedem, eles precisam mais do que precisam da própria vida, da própria alma. Eu dou o que eles querem, eu dou tempo a eles e eles nunca agradecem. Eu os levo pro inferno por terem vendido suas almas, eu dou o que eles merecem!

                - Por favor! Eu me arrependo…

                - Não existe essa coisa de arrependimento! – ela interrompeu – Você esqueceu os seus valores e deu sua vida por um monte de grana. É isso! Fim! Esqueça…

                Baixei a cabeça. Qualquer um duvidaria, mas ela continuava jovem e seus olhos estavam escuros, ela tinha razão sobre tudo… Mas eu não poderia me entregar, jamais! Eu não tinha idéia do que fazer.

                - Não fique assim, Dan – ela levantou minha cabeça e me beijou – Vai dar tudo certo… Para mim, pelo menos.

                Ela sorriu e foi andando em direção à porta como havia feito anos antes. Ela olhava para mim e seus olhos voltaram ao normal. Ela parou na porta e seus lábios vermelhos mandaram um beijo.

                Eu comecei a chorar e ela saiu pela porta. Eu corri atrás dela e ela havia sumido. Eu gritava seu nome, gritava e gritava. Eu me sentia vazio, mais vazio do que jamais me sentira. Eu podia sentir o frio saindo da minha pele e um fogo ardente tomando-o a partir do peito. Eu suava e minha gravata me enforcava, eu chorava e gritava.

                Acordei na minha cama. Scarlet pegando os sapatos no chão ao lado da porta do banheiro, fechando o zíper do vestido e olhando pela janela. Scarlet sentando-se na cama e me beijando. Nenhuma palavra conseguiu sair de minha boca. Scarlet deixou o quarto e foi embora pela porta da frente.

                Levantei-me e olhei em volta. Eu estava no meu apartamento antigo, quando era pobre e implorava por sucesso e dinheiro. Olhei no espelho. Eu era jovem novamente. Olhei no calendário na geladeira. Era 2001.

                Corri até a sala e vi um pequeno bilhete amarelo passando embaixo da porta.

                Não pense que desta vez será melhor. Eu não te dei uma segunda chance. Eu sou o Diabo e não uma fada madrinha. Agora viva sua vidinha miserável e nem pense em me chamar novamente, estarei ocupada demais vendo você sofrer.

Scarlet

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May 16, 2011


Matadores

Eu estava segurando o revólver em direção à cabeça dele. Ele estava de costas, nunca iria descobrir o que o haveria atingido. O estacionamento estava mal iluminado, nenhuma câmera voltada para mim, apenas uma para ele. Apenas uma capturaria esse momento, parte dele, pelo menos.

Enquanto eu me escondia atrás da coluna, ele conversava com algum sócio sobre os rios de dinheiro que andava devendo, a razão pela qual fui mandada aqui para matá-lo. Eu já tinha prática para fazer tudo discretamente, ou indiscretamente… Como o chefe mandasse.

Esperei ele terminar seu pequeno diálogo. Seria grosseria interrompê-lo em meio a tão caloteiro discurso e cheio de mentiras para justificar as dívidas da empresa. Coitado, era melhor deixar seus últimos segundos valerem de pura falcatrua do que da mais pura realidade. Ele gastou toda a grana num cassino e apostou mais do que devia, nisso ficou devendo até os canteiros do jardim da bela mansão que na verdade não tinha.

Atirei. Bem nos miolos. Perfeito.

Seu sócio estremeceu e saiu correndo como se estivesse em chamas.

Eu não era uma psicopata. Eu simplesmente acho que tirando a vida de algumas pessoas, de outras pode melhorar. Veja, com esse furo de bilhões na empresa, muitos seriam mandados embora, muitos ficariam mais de um ano desempregados, muitos passariam até fome talvez. Agora com o sacana morto, eles descobririam que o cara gostava de apostar e dariam um jeito. Seria muito melhor do que prender alguém por roubo… Poderia ser qualquer um que esse imbecil pudesse ter acusado.

Subi pelas escadas de emergência e cheguei à rua. Entrei num táxi e voltei para o trabalho.

- Raven, temos mais um pra você hoje – disse Jo, a secretária do chefe – Você e Damon.

- Ok… – Damon era meu parceiro.

Sentei-me em frente à televisão da sala de espera. A empresa que ordenava assassinatos se passava por um escritório de advogados de aparência renomada, com caras bem vestidos e poltronas modernas, além de musiquinhas de espera no telefone que serviam geralmente para ignorar possíveis clientes que viessem a acreditar que era realmente um escritório de advogados.

Damon saiu do elevador com seu envelope recheado na mão.

- Jo, acho que estão faltando uns cinco mil aqui… – ele se apoiou no balcão de Jo.

- Ah, boa tarde para você também – disse cobrando a saudação – Deixe-me ver…

Damon entregou o pacote e se sentou ao meu lado.

- Oi, Raven – olhou para mim – Temos mais trabalho para hoje?

- Sim. Jo vai passar as informações.

Damon recebeu seus cinco mil do último assassinato e pegamos as informações. Tínhamos que ir à uma festa de inauguração de um grande hotel chique e cheio de gente famosa. Iríamos caçar Hunter Arrow, um milionário que havia vendido ilegalmente carros de última linha de uma marca absurdamente cara.

Fomos para a sala onde ficam as roupas para nos infiltrarmos no ambiente da vítima. Escolhi um vestido de gala azul turquesa e Damon pegou um terno caro muito bem feito.

Entramos na limusine, escolhemos nossos disfarces. Eu seria Lois Bennet e ele seria Paul Bennet, seriamos um casal de donos de uma rede de shoppings por todo o continente.

Damon e eu entramos no majestoso hotel, passamos pelos arcos e fomos ao salão de festas. Fui atrás de Juliet Arrow, esposa de Hunter, enquanto Damon foi ao banheiro e ao cassino do hotel procurar por Hunter. Seria mais fácil encontrá-lo se estivesse perto da esposa. Vi Juliet perto de um bando de dondocas metidas e ricas bebendo champagne de qualidade. Aproximei-me delas como se aquilo tudo não fosse novidade para mim.

- Olá, queridas – imitei uma delas falando – Sou nova na cidade, sou Lois Bennet – apertei a mão de uma delas.

- Nunca ouvi falar – disse uma mais velha com bronzeamento artificial.

- Eu e meu marido temos uma rede de shoppings de lojas famosas. Vamos abrir sete aqui no… na região.

- Ótimo, querida – elas sorriram – Junte-se a nós.

- Obrigada. – olhei para Juliet – Juliet Arrow? Meu Deus! Ouvi falar tanto de você! Meu marido é amigo de alguns amigos de Hunter. Podemos jogar golfe um dia desses…

- Claro, Lisa! – ela sorriu.

- Lois – sorri de volta.

Despedi-me delas e fui a procura de Hunter já que ele não estava por perto. Mandei uma mensagem para Damon perguntando se o havia encontrado. Respondeu-me num instante, disse que o estava sentado na mesma mesa de apostas que ele e que era para eu encontrá-lo.

Fui até o cassino e fui à mesa de meu suposto marido. Ele estava sentado à minha frente. Coloquei as mãos em seus ombros e disse:

- Olá, querido – sorri.

- Oi, amor – ele sorriu de volta.

Fiquei assistindo o jogo e depois puxei assunto com Hunter sobre sua esposa e que deveríamos nos encontrar para uma partida de golfe, além de inventar que Paul era extremamente habilidoso.

 - Paul, não quer convidar Hunter para jantar na nossa mesa esta noite?

- Seria uma honra – disse Hunter.

- Ótimo – disse Damon – Então vamos. Já devem estar servindo.

Fomos até a mesa e no caminho, Damon pediu para Hunter ir ao banheiro com ele procurar um amigo. Hunter não entendeu muito bem, mas entrou e eu fui logo atrás. Bloqueei a porta do banheiro e verifiquei se não havia ninguém por lá.

Hunter já estava assustado. Damon o segurou pelo colarinho e o ergueu. Apertei a nuca de Hunter e ele desmaiou, mas seria por apenas alguns segundos. Damon apertou fortemente sua gravata e o pendurou na porta da cabine.

- Enforcado… – bufei – Assim não tem graça.

- Não podemos dar um tiro aqui.

- Então use uma faca e corte a garganta – tirei a faca do bolso interno do paletó dele.

Ele cortou a garganta de Hunter e saímos pelo duto de ar no teto. Fomos engatinhando até encontrarmos uma saída que parecia segura. Chutei a passagem e pulei dentro de um daqueles lugares que são guardados os utensílios das camareiras.

- Vamos Damon! – cochichei.

- Aí é muito apertado…

- Venha logo! – puxei seu pé.

O espaço era mínimo, ficávamos espremidos e estava escuro. Eu não conseguia me mexer para encontrar o interruptor e Damon derrubou uma pilha de produtos de limpeza.

- Parabéns, idiota.

- Acenda a luz para eu arrombar essa porcaria.

Acendi a luz e nos viramos para ele conseguir arrombar a fechadura da porta. Estávamos bem longe do salão de festas, mas conseguimos ouvir gritos desesperados.

 - Vamos, entre no elevador – Damon me conduziu.

Subimos até o último andar e entramos na escada de emergência. Fomos até o telhado. Teríamos que esperar tudo se acalmar para descer e ir embora. Alguém poderia ter nos visto entrar no banheiro, ou poderíamos ter sido filmados… Sempre trabalhamos com essas possibilidades.

- Está com frio? – disse Damon. Damon era meu parceiro há três anos, eu estava nesse ramo há quatro anos, desde que tinha apenas vinte anos. Damon tinha vinte e seis anos. Eu gostava dele mais do que deveria. Parceiros não devem ser muito próximos, não ao ponto de serem de importância emocional um para o outro, apenas se darem bem em trabalhos. Nunca participei de nenhum trabalho com outro parceiro e Damon sempre cuidava para que fossemos sutis e que nunca percebessem que andamos disfarçados. Sem ele eu já teria sido pega em uma das grandes missões. Ele era do tipo “funcionário do mês”, mas isso é muito clichê.

- Um pouco – peguei o paletó que ele me estendeu.

- Aqui é bonito de noite. As luzes da cidade estão… bonitas.

- Sim. Devíamos vir aqui mais vezes – sorri.

- Raven, acho que precisamos nos separar.

- O que quer dizer? – olhei para ele.

- O chefe sempre diz que não se pode gostar muito dos parceiros, sabe como é. Existem trabalhos que mandam matar antigos parceiros e também sempre tem o risco de um de nós ser pego…

- Damon, pare com isso. Ninguém vai ser pego – ignorei a primeira parte do que ele havia dito.

- Eu sei, você é a melhor e eu… acho que também sou, sem querer me gabar – ele riu envergonhado – Estou querendo dizer que não podemos mais trabalhar juntos.

- Por que não?

- Eu me importo demais com você – ele olhou para mim por um breve momento.

- Damon…

- Não precisa dizer nada, Raven.

- O que quer dizer quando diz que se importa?

- Que você não sai da minha cabeça há meses e eu estou tentando parar de me importar tanto assim, mas não consigo. Raven, me desculpe – ele cruzou os braços com frio.

- Damon – puxei seu rosto – Quero dizer, Paul Bennet, querido.

Ele me olhou confuso. Um sorriso esboçou-se em seu rosto, mas logo se apagou enquanto eu olhava para ele. Ele parecia tão encantador sendo Paul Bennet, dono de uma rede de shoppings, cheio da grana e com uma mulher que não faz nada da vida a não ser compras. Sortudos esses dois, seja lá quem forem os verdadeiros.

Eu o beijei e continuei segurando seu rosto. Passei a mão em seus cabelos castanhos e olhei fundo em seus olhos como se fossem estrelas no céu.

- Lois Bennet, vamos parar com essa babaquice toda e sermos somente Raven e Damon, o casal matador de idiotas endividados – ele sorriu e me beijou de novo.

- E o chefe? – eu disse.

- Ele não precisa saber.

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April 26, 2011


Seguindo também. *-*
AMEI os tubarões s2
weweresoalive

Muito obrigada :)

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April 19, 2011


Seguindo. ^^
renoirandrenault

Muito obrigada :D

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April 13, 2011


Você Sabe

                Era sábado, você sabe. Acordou, vestiu as roupas de ontem sem se importar. Foi comprar um café na esquina, não pegou o troco, até que foi gentil de sua parte.  Sem planos para mais tarde, você continuou andando, foi dar uma volta pela rua, olhar vitrines e ver gente passando. Nada de muito estranho até então.

                Andando calmamente, você vê uma menininha perdida. Bem, parece perdida. Olhando rápida e atentamente para os lados. Uma menininha pequena, de uns cinco anos, vestida de azul. Você olhou para os lados, estava procurando alguém que se parecesse com ela. Um pai ou uma mãe, talvez uma avó.

                Você parou ao lado dela, tocou seu ombro e perguntou se estava perdida. Ela não respondeu. Olhou para seu rosto como se não entendesse o que dizia. Um homem apareceu e pegou a mão da menina, resmungou algumas coisas em outra língua. Ela o abraçou e entraram em uma loja. Estrangeiros… Nem pensaram na possibilidade de você estar tentando ajudá-la.

                Você foi andando. Nem se lembrava mais do recente ocorrido, só foi andando, dando goles no seu café com caramelo e observando as palmeiras nas calçadas. Estava calor, você sabe.

                Parou na frente da loja onde uma antiga namorada trabalhava. Você olhou pela vitrine para procurá-la. Ela não estava lá. Continuando seu caminho sem fim, encontrou uma loja de camisas e deu uma olhada nos manequins pálidos. Estava meio monótono, mas o sol lhe esquentava os braços.

                Chegou ao parque e jogou o copo do café na lata do lixo. Foi andando até encontrar um banco virado para o lago. Sentou-se e pousou as mãos ao lado das pernas. O sol era reconfortante e a brisa estava boa. Eu cheguei e sentei ao seu lado, mas você nem desconfiou que houvesse alguém ali.

                Eu coloquei meu braço perto do seu. Você sentiu calafrios e cruzou os braços. Estava muito bonito naquela manhã, seus cabelos castanhos estavam encantadores. Eu não queria deixá-lo ali. Vinha te observando desde a madrugada, pela janela de seu apartamento e o havia seguido até o parque. Assustador, não?

                Cheio de vida e muito jovem ainda. Vinte e quatro anos, somente. Solteiro, estudioso, queria abrir o próprio negócio e ainda não pensava em encontrar a mulher perfeita, não por enquanto.

                Eu tinha um propósito. Um trabalho a fazer. Uma pena. Você teria sido um daqueles de que sempre me lembrarei. Você e outros três de épocas diferentes, muito parecidos, se quer saber.

                Segurei seu queixo e olhei em seus olhos. Você não podia me ver. Estava com frio agora. É, eu deixo as pessoas com frio quando as toco. Vi o castanho claro de seus olhos e olhei fundo neles, lentamente esperando que desse três rápidos suspiros. Seus olhos foram se fechando, como se estivesse cansado. Puxei seu corpo para que deitasse em meu colo, sutil e delicadamente. Toquei seu pescoço e o coração, assim como esperado, não batia mais.

                Tinha chegado o fim. Eu tiro a vida das pessoas. Assim, rápido, fácil, sutil e delicado. Você não perceberia jamais que eu estivera tão perto por tão pouco tempo. Você teria fugido se soubesse. Fugiria em vão, eu não deixo ninguém escapar. Eu havia te escolhido, aleatoriamente, mas por algum motivo, foi você e não outro qualquer.

                Aleatoriamente não significa nada. Assim como seu nome agora. E eu, ah, eu sou a Morte.

                

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March 30, 2011


O Tiro

                - Alex, largue essa arma… – eu disse calmamente.

                Ele não respondeu. Continuava ali parado apontando o revólver diretamente para a própria cabeça. Sorriu como se eu estivesse fazendo piada. Eu cheguei, graças a Deus, bem na hora, antes de ele cometer o maior erro de sua vida. Alex era assim, bastava uma garota dar o fora nele que ele desistia de tudo e achava que não valia mais a pena tentar. Já havia tentado se matar com remédios, mas nunca com uma arma.

                - Alex. Ei! – dei um passo em sua direção – Venha, vamos nos sentar no sofá e você pode ligar a televisão e se distrair, certo?

                - Pare de agir como se eu fosse louco e você estivesse apenas tentando me controlar! – ele nem moveu a arma.

                - Mas você está louco e eu estou tentando te controlar! – dei mais um passo em sua direção, mas ele recuou dois – Você não vai querer jogar sua vida fora vai? Veja só quantas coisas importantes vão acontecer na sua vida! Você já está quase terminando a faculdade…

                - O que isso tem de importante? – ele olhava fixamente pela janela do quarto.

                - Você vai arranjar um emprego… – eu juro que estava tentando encontrar razões positivas, eu juro.

                - Mais trabalho, cansaço e menos diversão… Não me parece muito interessante… – ele continuou lá.

                - Só porque uma garotinha te deixou, não significa que você não preste e não mereça viver! – eu me sentei em sua cama – Veja, Alex… existem tantas coisas que eu já fiz de errado, tantas coisas que me arrependo, tantas cagadas, tantas besteiras que, eu juro pra você, eu faria de tudo pra voltar atrás – fiquei entre a janela e ele -, mas eu ainda estou aqui.

                - E como você agüenta? – ele respondeu olhando fixamente para frente.

                - Eu simplesmente acredito que deve ter alguma coisa realmente muito boa lá na frente. Acredito que um dia vai acontecer alguma coisa que vai me fazer agradecer por estar aqui, por ter chegado lá. Vai ser especial, vai me fazer esquecer de todas essas besteiras que cometi.

                Ele ficou parado. Seus olhos começaram a se encher de lágrimas, mas não transbordaram.

                - Alex, largue essa coisa.

                - Só quando ela disparar! – ele gritou.

                - Pelo amor de Deus, Alex! – segurei sua mão que pendia ao lado da cintura – O que é preciso para te convencer?

                - Me dê uma razão para continuar.

                - Amanhã pode ser melhor.

                - Quem garante? – ele olhou de relance para o lado.

                - Eu garanto! – gritei.

                Ele riu e pressionou a arma contra a cabeça, se preparando para dispará-la.

                - Me diga… me diga uma coisa que nunca fez e que gostaria de fazer antes de morrer – olhei aflito para a arma.

                - Surfar com tubarões.

                - Quero dizer, sem acabar se matando no final…

                - Pular de pára-quedas – ele disse como se estivesse dizendo “estou cansado”.

                Olhei para meu relógio. Eram 19h40, não tínhamos tempo de encontrar algum lugar para pular de pára-quedas e qualquer que fosse o local, já estaria fechado. Amanhã seria uma sexta-feira. Dia de aula. Não importava. Iríamos faltar e pegaríamos e carro e iríamos em busca de algum lugar para pular de pára-quedas.

                - Tudo bem. Amanhã não iremos para aula e iremos realizar o seu desejo – sorri.

                - Oliver, eu tenho medo de altura – eu havia me esquecido.

                - Ah! E se você for vendado? Não vai ver o chão!

                - Prefiro morrer.

                - Não. Não prefere, não.

                - Me deixe em paz.

                - Nem por cima do meu cadáver eu deixarei você se matar.

                - Como você vai me impedir?

                Eu não tinha como impedi-lo. Ele poderia a qualquer segundo puxar o gatilho e estourar os miolos. Eu ficaria me sentindo culpado para o resto de minha vida. Alex estava decidido… Decidido? Talvez não estivesse decidido. Ele poderia ter atirado a qualquer momento. Não se preocuparia com a minha presença. Se fosse fazer, iria fazer. Não importava quem estivesse por perto.

                - Você nem se decidiu ainda.

                - Quer que eu prove? Em menos de um segundo eu explodo a minha cabeça e já era.

                - Não precisa provar, eu acredito em você. Vamos, tire essa arma daí.

                - Você duvida?

                - Pare de ser estúpido, Alex. Você não está certo disso.

                - Um…

                - Você vai largar essa coisa…

                - Dois…

                - Alex! – eu já havia pensado em como faria para empurrar seu braço quando disparasse, tentando desviar a bala. Pensei se daria tempo, parecia impossível, mas poderia funcionar.

                - Três! – Alex atirou.

                Ele atirou em mim. Bem no meio de minha barriga. Senti entrar, doer, sangrar. Gritei e fiquei confuso. Por quê?

                - Todas elas me deixaram por sua causa, Oliver. Você precisava pagar.

                - O quê? – eu mal conseguia falar. Estava ficando ofegante.

                - Amber, Jessica, Melissa, Elena… Todas elas – ele tossiu – me disseram que amavam outro alguém, alguém alto, atleta, bonitão, bem próximo de mim. Alguém chamado Oliver. Mas você era bom se mais para elas. Você tem Jamie. Elas não poderiam sequer tentar se aproximar de você. Elas são boas garotas, não iriam te causar nenhum mal, nem à Jamie. Estou fazendo um favor a elas. Elas precisam te esquecer.

                Eu simplesmente não podia acreditar que estava ouvindo essas palavras saírem diretamente da pessoa em que talvez, eu mais confiasse, ou uma delas, pelo menos. Alex era quase um melhor amigo. Nunca me pareceu estranho ou incomodado comigo. Ele era louco. Ele tinha algum problema. Psicótico, insano, doente. Ele me queria morto. Por quanto tempo veio imaginando como faria isso? Por quanto tempo eu o estava fazendo sofrer sem sequer suspeitar?

                Elliot, um garoto meio estranho, apareceu na porta. Tinha ouvido o barulho do tiro. Estava com um telefone na mão. Alex se virou e Elliot correu.

                Eu estava caído no chão. Ainda meio sem entender nada. Alex apontou a arma para minha cabeça e eu ouvi um disparo.

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March 21, 2011


O Lago

                Era uma sexta-feira à tarde quando chegamos. Tínhamos planejado há semanas. Eu, Brad, Jesse, Amber, Cristy e Chase. Arrumamos as barracas, conseguimos terminar pouco antes do anoitecer. Já estava com frio, vesti meu casaco.

                - Vamos dar uma volta perto do lago? – sugeriu Chase. O lago nada mais era do que uma imensidão de águas escuras. Sempre tive medo de entrar lá. Nunca entrei, na verdade, nenhum de nós nunca havia entrado.

                - Tudo bem, mas está frio de mais para nadar – disse Amber.

                - Não entro naquele lago nem morta! – Cristy gritou – Aposto que nem Blair entraria.

                - Então ganhou essa aposta – completei.

                - Ninguém precisa entrar – Chase riu -, só que for corajoso o bastante.

                Sim, isso mesmo. Estava começando exatamente como aqueles filmes idiotas em que alguém entra no lago, desaparece e depois de dois dias, reaparece boiando lá, morto. Eu dei risada. Aquele bando de meninos sem nada na cabeça estava prestes a bancar os machões e sair da água, congelados e com o rabinho entre as pernas. Essa eu pagaria pra ver.

                Fomos andando até a margem do rio. Parecia mais escuro do que da última vez.

                - Então, quem será o primeiro? – disse Jesse já tirando o casaco.

                - Brad! – chamou Chase – Vamos lá!

                Os três garotos entraram na água congelante do lago escuro. Não podíamos enxergá-los quando estavam totalmente submersos, o que me deixou um pouco preocupada. Bobagem. Estava tudo bem.

                Eu e as outras duas meninas ficamos em pé na margem, pisando nos gravetos que caíram das arvores ao redor. Eu estava tremendo de frio. Escorreguei em um graveto maior e caí no chão. Olhei para minha perna que havia sido cortada por uma das pontas afiadas dos gravetos. Peguei um pouco de água de dentro do lado e joguei em cima do corte.

                - Blair? Está tudo bem? – Cristy se preocupou.

                - Está… – respondi enquanto procurava os meninos no lago.

                Eles apareceram logo em seguida, morrendo de frio. Vestiram seus casacos e voltamos para as barracas para acender a fogueira.

                Quando já era tarde e já estávamos aquecidos e alimentados, Jesse, que tinha se deitado em seu saco de dormir do lado de fora da barraca para acompanhar a conversa, começou a coçar continuamente seu pescoço. Poderia ser uma simples picada de inseto.

                - Ei, cara, tudo bem aí? – disse Brad olhando a ferida em seu pescoço.

                - Alguém trouxe algum remédio para picada? – ele continuava coçando, faltava pouco para rasgar a pele.

                - Isso não parece muito com uma picada… – disse Amber examinando.

                - Então, que diabos é essa porcaria? – Jesse se irritou e continuou coçando, até que começou a sangrar. Chase despejou um pouco de água no ferimento, lavando o sangue. A temperatura congelante da água fez com que anestesiasse por alguns segundos.

                - Aguenta ficar sem coçar? Não parece estar inchando. Acho que não é alergia nem nada – disse Chase.

                - Acho que sim – Jesse esticou os braços para dentro do saco de dormir.

                No meio da noite, quando já estávamos todos dentro das barracas, ouvi ruídos vindos da barraca dos meninos. Acordei Amber e saímos da barraca. Abrimos a barraca deles e lá estava Jesse, se coçando como um cão sarnento e seu pescoço em carne-viva.

                - Jesse! – Amber o sacudia para acordar.

                - Chase, vá pegar mais água! – mandei – Brad, pegue a caixa de remédios!

                Jesse se sentou. Segurei sua mão para que não a levasse de volta para o pescoço. Chase despejou um pouco de água do cantil que fez arder. Jesse estava irritado e queria insanamente continuar coçando.

                - A água do lago está mais fria, vai anestesiar por mais tempo – Chase saiu e foi até o lago. Não me pareceu uma boa idéia, mas realmente o faria se acalmar um pouco.

                Poucos segundos depois, lá estava Chase despejando a água fria do lago. Jesse se acalmou na hora e logo se deitou de volta. A temperatura baixa da água tinha realmente ajudado e talvez o curativo amenizasse os acessos de coceira. Fiquei em alerta por mais algum tempo, para ver se ele não voltava a se coçar, mas estava tudo bem.

                No dia seguinte, nos sentamos em volta da fogueira e comemos as frutas do café da manhã. Olhei para o pescoço de Jesse. Estava cicatrizando, não era mais uma ferida. Estranhamente tinha acelerado o processo de cura. Não estava cem por cento ainda, mas estava bem e também não coçava.

                Pela noite, a ferida abriu novamente, coçando mais do que antes. Jesse não estava resistindo a não coçar. Antes que cedesse, Chase pôs mais água do lago o que ajudou novamente.

                - Isso está muito estranho… – eu disse enquanto olhava de longe o machucado – Me passe o cantil, Chase – ele lançou o cantil para mim que caiu e se abriu derramando água sobre minha perna. Meu machucado que ainda estava lá, ardeu. Não gostei da sensação da água fria sobre a pele e larguei o cantil. Peguei uma toalha e tentei me secar.

                Na madrugada, tanto o meu machucado quanto o de Jesse estavam coçando insuportavelmente. Jesse não agüentava mais. Levantou-se e foi em direção ao lago negro. Tentei impedir e fui atrás.

                - Jesse, espere! Não entre no lago! – tentei segurar seu braço, mas ele se soltou – Essa água está nos fazendo mal, Jesse!

                Jesse pulou no lago e ficou submerso. Chase, Brad, Amber e Cristy estavam se aproximando. Olhei a barra de minha calça, ensopada de sangue. Dobrei-a e coloquei a perna dentro da água. Jesse me puxou e eu caí dentro.

                Jesse continuava me puxando, não me deixava subir. Naquele momento eu soube que não deveria nem ter me aproximado do lago. Nenhum de nós nunca havia sequer tocado naquela água escura e sem fim. Eu continuava submersa e Jesse não largava o meu pé. Tentei chutá-lo com a outra perna para que me largasse, mas sua outra mão agarrou meu outro pé.

                Continuei lutando desesperadamente, quando sem ar. Via aquelas bolhas gigantes saindo pela minha boca enquanto involuntariamente gritava por socorro. Meu fôlego se esgotou. Não conseguia enxergar absolutamente nada. Senti um par me mãos em minhas costas, me puxando. Meu desespero aumentava a cada segundo. Não passava por minha cabeça o que havia com Jesse. Apanhei as duas mãos em minhas costas e as puxei para que me salvasse. Poderia ser um dos meus amigos.

                Jesse não me puxava mais para baixo, só me mantinha ali. Não compreendi como ainda conseguia segurar o fôlego. Continuei me debatendo até que fui solta. Subi e tomei fôlego. Em menos de um segundo, Jesse já havia me puxado novamente. Conseguir ouvir berros do lado de fora. As mãos voltaram às minhas costas, agora me arranhando. Tentei fazer com que me largassem. Outro par de mãos veio ao meu braço direito e depois ao esquerdo. Me puxavam e arranhavam repetidamente. Fiquei imóvel, guardando o pouco ar que me restava.

                Consegui enxergar um ponto de luz vindo em minha direção. Uma lanterna, dessas à prova d’água que os meninos tinham trazido. As mãos me arranhando estavam mais fortes e eu continuava imóvel, talvez estivesse chorando. A lanterna parou de vir em minha direção. Desceu rapidamente e ficou balançando. Alguém estava sendo arranhado também, alguém havia sido pego, assim como eu. Não era Jesse que estava me fazendo mal. Aquilo não era humano.

                A lanterna foi largada e desceu até o fundo, me deixando na escuridão novamente. Eu não sentia mais frio no corpo, a ardência e a dor eram maiores. As garras não paravam de me coçar. Algo tocou minha perna bem em cima de meu machucado. Não ardia mais. Fui puxada para mais fundo. Estava quase me rendendo, desistindo. Não queria acreditar que me levaria à morte. Continuei chorando desesperada. Tentei lutar mais uma vez, me remexi e esperneei para que me soltassem. Em vão, não me soltaram e continuaram seu trabalho. Algo tapou meus olhos, como se pudessem ainda enxergar.

                Acordei na manhã seguinte, deitada na margem com os braços e pernas em carne-viva. Minhas costas ardiam demais. Vi Amber se aproximar. Estava arrasada, não parava de chorar. Eu não tinha forças para falar.

                - Blair! – ela soluçou – Chase, ela está viva!

                Vi Chase chegar correndo junto com dois homens vestidos de branco. Colocaram-me numa espécie de maca. Pude ver outros corpos na beira do lago, totalmente arranhados, dilacerados. Brad, Cristy e Jesse.

                - Blair, vai ficar tudo bem. Vai ficar tudo bem – Amber soluçava.

                

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March 3, 2011


Chuva

Eu andava de volta para minha casa, andando pelo caminho de sempre, a passadas tranqüilas. Desta vez, a passadas rápidas e hesitantes. Eu olhava para o chão e sentia meus olhos encherem de lágrimas. As gotas de chuva molhando minhas costas. Hoje não era meu dia, assim como os dias que vinham passando ultimamente. Senti uma gota descer pelo meu rosto, não consegui definir se era de chuva ou de uma lágrima, fria como gelo.

                Cruzei os braços e coloquei as mãos sobre o peito, sentindo o coração bater acelerado. Apertei os braços como se segurasse o coração, como se estivesse limitando seus batimentos. Eu queria que parasse. Eu não podia chorar. Eu não sabia por que chorar. Talvez eu soubesse, mas não entendesse ou não admitisse. Talvez eu estivesse fugindo desse choro ha tempos e não conseguisse mais segurá-lo. Não desta vez.

                Continuei meu caminho, de cabeça baixa, fui cruzando o caminhozinho de pedras no meio da praça. Estava com frio nas pernas, meu vestido só ia até os joelhos. Meus sapatos já estavam encharcados e meus dedos congelando. Não demoraria muito até chegar em casa, só mais algumas quadras e estaria lá. Eu deveria parar de chorar ao chegar, para evitar qualquer pergunta que não me convenha responder no momento.

                Ouvi passos correndo, mas não pensei que fosse alguém correndo. Misturava-se com o barulho da chuva. Ignorei e andei mais de pressa. Eu queria fugir. Não queria conversar. Ou talvez quisesse e também não admitisse.

                - Te alcancei – ele disse ofegante.

                - Não precisava se esforçar tanto – respondi.

                - Não estou fazendo isso porque acho que é certo. Estou fazendo porque quero – ele estava me acompanhando.

                - Então faça o que é certo e dê meia volta.

                - Eu não quero dar meia volta, Hay – ele tocou em meu braço.

                - Ian, somente me deixe. Vá embora – as lágrimas corriam mais rápido. Eu estava agindo conta minhas vontades. Eu queria abraçá-lo.

                - Hay, escute – ele entrou na minha frente, bloqueando meu caminho. – Seja lá o que for, me perdoe, ou pelo menos explique o que houve. Hay, não faça me sentir pior.

                - Eu jamais o machucaria! Você sabe! – tentei desviar – Quem machuca é você.

                - Se eu soubesse que a estava machucando, talvez eu tivesse parado e você não estaria chorando. Tudo estaria bem. Eu não tenho como adivinhar, Hay – ele me segurou pelo ombro.

                Eu parei de andar. Cobri o rosto com as mãos. Ele me abraçou e eu o empurrei para longe de mim. Ele me soltou quando percebeu que eu não o deixava se aproximar. Senti um aperto no coração como se tivesse feito algo muito errado, me arrependendo.

                - Tudo bem, Hay – ele deu meia volta e deu alguns passos.

                Senti um aperto maior no coração. Eu queria correr, queria abraçá-lo, tê-lo perto de mim. Minhas pernas tremulas não me acompanhavam. Ele começou a andar mais devagar e chutar umas poças d’água. Estava completo de raiva, estava confuso e chateado.

                - Ian! – ouvi meus lábios dizerem, mas não alto suficiente.

                Comecei a correr e quase escorregar no chão molhado de pedrinhas. Tropecei e caí, cortando meus joelhos. Ian olhou para trás e voltou para me ajudar. Seus olhos tristes e molhados.

                Eu o abracei e senti o seu perfume. Enrosquei meus dedos em seu cabelo e olhei em seus olhos. Ele não entendia e eu também não. Eu o queria perto e ele também. Eu o amava e ele também.

                - Nunca mais recuse um abraço meu, Hay. É como se nunca mais quisesse me ver novamente – uma lagrima cruzou seu rosto.

                - É por isso que vim te abraçar, Ian. É porque o que mais quero é te ver todos os dias quando eu acordar, todos os dias quando eu for dormir.

                Ele me beijou e eu desejei que tudo ficasse bem. Tudo estava bem. Tudo.

                - Hay, isso seria a melhor coisa do mundo.

                Minhas lágrimas de tristeza secaram. Senti uma pequena rolando pela minha bochecha. Essa era de alegria, de felicidade.

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